Meu primeiro bichinho foi uma gatinha, de rua. Acho que foi ela que me adotou, quando eu tinha 4 anos e morava em Rondônia. Quase não tenho lembranças de lá. Mas me lembro do calor abafado do Norte e da Xaninha, como a batizei. É eu sei… Foi ela quem plantou a sementinha do amor que sinto pelos bichanos. Depois tive o Wally, um siamês falador, fofo e rueiro, me acompanhou toda a adolescência. Alguns anos depois ganhei de presente do Léo uma persa preta linda de viver quando namorávamos. Ela viveu pouco, teve PIF (Peritonite Infecciosa Felina), uma tristeza só.

Morando em Portugal o Léo quis me dar um gatinho. Ele passaria quase um mês fora e não queria que eu ficasse sozinha. Relutei por não querer ficar presa, intencionando viajar pela Europa. Por insistência dele, fomos apenas conhecer a ninhada. Ele sabia que eu ia cair de amores assim que colocasse os olhos e as mãos naquela bola de pêlo fofa, macia e mole. Digo mole porque é uma Ragdoll e a característica da raça é ficar mole, se desmanchar ao ser carregada <3. Quem ama seus bichinhos sabe que eles são amigos, família.

Eu nunca tive um cachorro para chamar de meu, apesar de gostar muito e ter vontade às vezes. Cachorro tem uma interação diferente, eles são todo amor sempre, fazem festa quando você chega, dão carinho sempre. Eu sei disso. Gato não é assim. Mas se engana quem pensa que gato não é amoroso e não existe mentira maior de que gato se apega ao lugar e não ao dono. A Lily é uma stalker, ela anda atrás de mim o tempo todo, me acompanha a todos os cômodos. Me espera na porta do banheiro e se eu demoro a sair do banho, ela bate na porta (fica passando a patinha). Se eu acordo de madrugada, ela acorda cambaleando de sono e para ao meu lado e dá um único miau baixinho e rouco, como quem diz tô aqui com você. Quando deito para ler ou ver um filme ela se encosta em mim. De manhã quando ela acorda mia na  porta até ser atendida, já chega fazendo ronron e tudo o que ela quer é cafuné, muito cafuné e retribui com lambidinhas carinhosas (gato também faz isso), assim como ela dá lambidinhas  de agradecimento quando eu coloco comida para ela.

Eu sou uma Felícia, gosto de carregar, apertar, passar a mão. E ao contrário de cachorro, gato às vezes cansa de todo esse carinho. Tem horas que ela não quer que eu a carregue e sou avisada com um empurrãozinho. Muitas vezes ela gosta de estar perto, quer proximidade mas não muita. Ela tem os momentos dela, gosta de ficar sozinha para tirar um cochilo ou ficar no quintal. E eu absolutamente respeito o espaço e a vontade dela. Ela não vai deixar de me amar, sei que amanhã de manhã ela vai me dar muitas lambidinhas, e que quando eu a chamo ela vem. Eu compreendo quando ela não está “afim de papo”, também tenho esses momentos. Todos temos. Creio que esse respeito pela liberdade e individualidade de cada um é entre outros fatores, pilar de harmonia, da boa convivência e da reciprocidade. Vejo muitas pessoas querendo relacionamentos amorosos, ou com amigos, do tipo cachorro. Aí é um sofrimento só. Não funciona.

A maioria das pessoas não são boas e não tem tempo nem para elas, não são suas próprias prioridades, o que dirá para outros. Vejo mulheres buscando em companheiros o amor que não tem por si próprias, buscando uma constante aprovação. Numa eterna busca por carinho e atenção acabam afastando o outro. Quando a Lily não está afim, como eu disse, ela me dá um empurrãozinho, se eu insisto ela mia. Se eu insistir mais talvez ela me arranhe. As pessoas são assim também, vão dando pistas e sinais, seletivamente ignorados até que se leve um arranhão ou uma mordida ou o desprezo. Conviver com um gato é um bom aprendizado de respeito ao espaço alheio. Para mim, pelo menos, é.  

 

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